Música

Pabllo Vittar: Que fascínio é esse que ela exerce sobre você que não dá pra ignorar?

Pabllo Vittar: Que fascínio é esse que ela exerce sobre você que não dá pra ignorar?

Ultimamente, vem sempre uma galera dizer que ninguém pode falar que não gosta de Pabllo Vittar, senão corre o risco de ser chamado de homofóbico. Dizem também que ela é um produto da mídia, que força uma barra pra todo mundo gostar dela e todas aquelas justificativas pra disfarçar o quanto o estranho incomoda. Veja bem, estou falando de estranhamento ao novo e não de preconceito.

Eu, por exemplo, nunca vou entender um fenômeno de cantores com o mesmo timbre, temas e arranjos musicais darem certo por tanto tempo como é o sertanejo, que respeito, mas você não vê esse número absurdo de pessoas desqualificando o trabalho dos caras e fazendo memes maldosos, dizendo que eles cantam mal, que gritam, que desafinam.

E essa já é uma diferença. Se você consegue passar sem grandes traumas pelo o que não gosta de ouvir, porque precisa pontuar que é uma taquara rachada? Que engoliu gás? Que fascínio é esse que ela exerce sobre você que não dá pra ignorar? Será mesmo que você não gosta de Pabllo Vittar? SERÁ?

Eu acho K.O. meio que um “forró melody” que não agrada muito, mas em termos de sucesso é uma das músicas mais executadas do ano sim. Você tem todo direito de não gostar de Pabllo Vittar. Não só da música, pode não gostar dela inteira também, é um direito seu. A questão é essa sua vontade de desqualificar o que é estranho pra você e, convenhamos, para o que estávamos acostumados em ver como sucesso ela é toda estranha mesmo. E isso é muito bom, pra todo mundo.

“Ah, mas ela canta mal demais, não tem talento”. Então, não é bem verdade. E ainda que fosse, eu não vejo esses técnicos vocais com discursos acalorados contra outros cantores. Ela faz uso excessivo de falsete, agudos e isso não agrada todo mundo. Mas, se você respeita clássicos dos Bee Gees e volta e meia está ouvindo Maroon 5 ou Justin Timberlake, você não pode dizer que Pabllo canta tão mal assim. Dificilmente alguém vai se dar ao trabalho de ir nas redes desses caras falar alguma coisa desrespeitosa. Será que essa súbita vocação para crítica musical, exclusivamente sobre a carreira da Pabllo, não está escondendo o que você realmente quer colocar pra fora?

“Ah, mas ela desafina”. Verdade. Cantores desafinam. Pilotos batem carro. Publicitários erram campanhas. Chefs erram a mão no tempero. Até Adele já desafinou no Grammy. E assim todo mundo segue na sua imperfeição, imagina alguém que resolveu fazer músicas INTEIRAS em falsete? Talvez ela deva parar de insistir em cantar sem base, já que ainda dança e haja fôlego.

“Ah, mas são letras vazias”. Realmente não é nada que irá além do retrato do tempo que vivemos, não vai virar clássico, é pra divertir e representar, cumpre uma função. Porém, se você tiver dois neurônios e o mínimo de disposição vai compreender que “eu não espero o Carnaval chegar pra ser vadia, sou todo dia” está bem longe de ser uma ode pela putaria, mas um grito de liberdade, de você ser o que bem entender, a qualquer hora e qualquer tempo. Simples.

E quanto as demais músicas, que vida chata é essa que você não pode quicar quando o grave bater de vez em quando?

É de cair o K.O. da bunda em como as pessoas subvertem as coisas. De não perceber que ela não foi aceita ou está acima das críticas porque é uma cantora drag que abusa do falsete e desafina ao vivo. Ela conseguiu chegar aonde está APESAR disso, apesar da turma do contra, apesar do incômodo, apesar de desafinar, apesar do passado pobre, apesar de ser uma artista independente até um dia desses. A arte dela é pura resistência e a gente, gostando ou não, tem que reconhecer que precisa ser muito foda pra remar contra essa maré gigante. Não é pra qualquer um.

Aceita. Respeita. Escuta se quiser. Vá passar mal com o que você quiser.


Texto escrito por Arnaldo Rocha Neto e não necessariamente representa a opinião do MDPOP.