Música

“As divas fazem parte da minha vida. Criei um show para homenageá-las”

“As divas fazem parte da minha vida. Criei um show para homenageá-las”

Paula Marquezini é o tipo de artista que você adoraria tê-la no seu círculo de amigos, pois ela tem uma energia contagiante. Simpática, carismática e brincalhona. Essas foram algumas das qualidades que percebi quando Paula me concedeu essa entrevista enquanto tomávamos um cappuccino (como verdadeiras descendentes de italianos) numa tarde fria de São Paulo.

Com mais de 15 anos na estrada da música, atualmente a cantora vem se apresentando nos palcos de todo o país com o seu show “Divas do Rock – Tributo às Cantoras do Rock Pop”. O setlist foi cuidadosamente escolhido e vai desde The Best (Tina Turner) a Bad Romance (Lady Gaga).

Desde criança a música sempre esteve presente na sua vida e a primeira cantora internacional que conheceu foi Laura Pausini. Aliás, o fundo de cena é muito interessante e Paula fez questão de compartilhar antes de começar a entrevista:

“Imagina você ser fã de uma pessoa e você escuta a música dela todos os dias na sua casa. Quando eu tinha uns 13, 14 anos, num domingo de manhã peguei a bicicleta para ir à padaria comprar pães. Na volta, eu passo pela rua Treze de Maio em frente à igreja da Nossa Senhora da Achiropita, quando eu olho, um cabelo preto esvoaçante e um cinegrafista. Meu, não era a Laura Pausini? Eu não sabia se eu jogava o saco de pães no chão, se saia correndo, se deixava de lado a bicicleta. Mas ao mesmo tempo eu pensei: ‘Não! Eles estão gravando, vou atrapalhar!’ Eu me arrependo até hoje de não ter ido lá falar com ela. Só depois de muito tempo que eu fui até um shopping de São Paulo para pegar um autógrafo numa promotour e consegui dar um abraço na italiana. Porém, até hoje eu me pergunto: ‘Por que naquele dia não fui lá bater um papo e oferecer um pão para Laura?’ Quem diria Laura Pausini no Bixiga… Quase tive um troço. Fiquei sem reação. Acho que somos assim quando estamos na frente de um artista que admiramos.”

Depois de rir muito com essa história, chegou a hora da entrevista.

MDPOP: Qual é a sua relação com a música e como iniciou a sua carreira?

Paula Marquezini: Cresci no Bixiga (bairro italiano de São Paulo) e ouvia muita música italiana. Os meus irmãos mais velhos tinham uma banda, mas eu não podia fazer parte porque era menina e mais nova. Eu ficava ouvindo os ensaios atrás da porta. Um belo dia, um dos amigos do meu irmão me ouviu cantar e comentou com eles que eu cantava. E assim começou, todas as vezes que a banda ensaiava, eles reservavam um tempo para cantar comigo. Um tempo depois, Roberto Nardi, amigo do meu irmão, também me ouviu cantarolando umas músicas da Laura Pausini e falou que iria me levar para assistir a gravação do programa do maestro Augustinho Záccaro.

Na época, eu tinha 15 anos e era muito tímida. Respondi: “Você é louco. Eu não vou!” No dia combinado, fingi que não estava em casa, mas Roberto ficou me esperando na porta. Enfim, fui. Quando cheguei ao teatro eu vi a Mafalda Minnozzi ensaiando com a orquestra. Eu simplesmente fiquei apaixonada pelo ambiente, porque realmente me senti em casa. Terminou a gravação, o Roberto me levou para a coxia e disse para o Záccaro que eu cantava. O maestro perguntou: “Você canta o quê de música italiana, menina?”. Eu respondi: “Canto La Solitudine”. Záccaro: “Que tom?”. Eu não sabia nem o que era tom, mas respondi: “Sei lá, igual ao da Laura”. O maestro sentou no piano e começou a tocar, quando foi chegando no refrão da música ele fechou o piano. Eu pensei que ele tinha achado uma m*****, mas Záccaro me perguntou o que iria fazer sábado. Respondi que não iria fazer nada, ele me deu uma fita K7 para ouvir e conhecer o trabalho da orquestra. Não entendia nada do que ele estava falando, mas conforme combinado no sábado fui para o Club Homs. Chegando lá, o maestro compartilhou com os integrantes que eu iria ser membro da orquestra. Naquela época, não tinha letra de música no Cifras. Eu tirei todas as músicas de ouvido, por isso, que o meu italiano é meio muçarela e calabresa (risos!). Então, aos 16 anos eu comecei a viajar pelo Brasil com o Záccaro. Todos os grandes cantores começaram no programa dele.

MDPOP: Pelo seu histórico profissional, percebemos que a música italiana é muito importante na sua vida.

PM: Sim. Eu comecei cantando Rita Pavone (Datemi un martelo) e Laura Pausini (La Solitudine). A música italiana é de grande importância na minha vida, pois ela me abriu as portas. Passei a cantar música americana com 20 e poucos anos quando fui convidada a cantar na China.

MDPOP: E como surgiu o convite de cantar num país asiático e como foi essa experiência?

PM: Então, depois que o Záccaro saiu da CNT ele foi para o canal 21 Band. O programa era gravado no teatro Paulo Autran. Lá, eu fazia produção do programa e sempre levava uma roupa de show na mochila, porque eu sabia que caso algum cantor faltasse eu iria substituir. Passado algum tempo o Záccaro adoeceu e automaticamente os shows foram sendo adiados. Foi quando eu conheci um empresário chinês que morava no Brasil e trabalhava com exportação de couro. Ele me ouviu cantando no estúdio dos meus irmãos e quis montar uma banda brasileira para tocarmos em Macau (que é conhecida como a Las Vegas do Oriente). Fomos tocar no Cassino The Cave (A Caverna) com um contrato de três meses que acabou sendo prorrogado por mais três meses. Cantávamos música internacional, bossa nova e música italiana. Inclusive, La Solitudine era uma das preferidas do set-list.

Quando cantamos a música Al di la (do filme Candelabro Italiano), o proprietário do cassino, ficou muito emocionado e depois veio nos cumprimentar dizendo que ouvia essa música na infância. Para você ver o poder que a música italiana tem no mundo inteiro. O cara não acreditou! E era engraçado que todo mundo no cassino achava que nós éramos italianos, pois os integrantes da banda tinham sobrenomes italianos. Todos eram brasileiros, porém descendentes de italianos. As músicas brasileiras não faziam tanto sucesso quanto as americanas e italianas. Fiquei lá seis meses e voltei para o Brasil. Em seguida, fui vocalista de uma banda super conceituada em São Paulo e fazíamos shows de terça à domingo. Permaneci por cinco anos e depois fiz parte da The SoundTrackers e essa parceria durou seis anos.

MDPOP: Você também participou do The Voice Brasil em 2014 interpretando a canção The Best da grande diva Tina Turner e fez parte do time do Carlinhos Brown. Como foi essa experiência de participar de um reality show?

PM: Em 2013, meu namorado me incentivou a participar. Eu gravei o vídeo e mandei, mas não esperava que eles iam me chamar. Naquele ano, eu passei em todas as fases, porém não cheguei a ser chamada para as gravações na TV.

No ano seguinte, tentei novamente e quando cheguei para fazer a audição, o Boninho (diretor do programa) disse: “Você aqui de novo”. Cantei a mesma música The Best da Tina Turner e eu nem precisei terminar de cantar e ele já me aprovou.

Fui para o Rio de Janeiro com minha mãe e meu namorado. Ficamos no hotel com todos os participantes do The Voice e seus parentes. Fui para o Projac, mas como os times já estavam completos eu não cheguei a me apresentar no palco.

A produção me convidou para voltar em outra data. Fui novamente para o Rio no dia combinado, me maquiaram e me produziram. Chegamos lá as 7h da manhã e já eram 20 horas, eu ainda não tinha subido no palco para cantar. E o pior, só restavam duas vagas. Quando de repente, um produtor gritou: “Paula Marquezini, agora!” Eu sai que nem louca para vestir os sapatos, colocar os brincos, correr do outro lado do estúdio. Cheguei lá sem maquiagem e descabelada, aí veio o maquiador tacar pó na minha cara. Eu falava: “Meu Deus, eu não quero pó!” (risos!).

Fiz a minha apresentação, mas como só existia uma vaga e os times de três técnicos já estavam completos, só tinha um único técnico que poderia virar a cadeira pra mim. A música já estava chegando ao fim e eu pensando: “Que vergonha!”, quando o Carlinhos Brown virou eu não vi. Ele me pediu para contar a minha história, aí que eu pensei: “Acho que passei!”. Carlinhos foi lá atrás pedir receita de lasanha para minha mãe! O Brown inclusive pediu para eu dar uma palhinha de alguma música italiana, eu cantei Dio come ti amo da cantora Gigliola Cinquetti e La Solitudine, mas na edição que foi ao ar, eles cortaram.

Confira o vídeo da apresentação de Paula no The Voice:

MDPOP: Gostaria que você comentasse um pouco da influência das divas na sua carreira.

PM: A senhora Laura Pausini tem muita culpa no cartório. Rita Pavone nem se fala, porque eu entrei no Záccaro e tive que substituir uma cantora que fazia um pout-pourri da Rita, que era a rockeira da Itália. Janis Joplin, porque a primeira vez que ouvi uma canção dela, eu pensei: “É isso aí que eu gosto!”. Adoro a Tina Turner. Eu gosto dessas moças que aparentam ser frágeis, mas que no fundo, quando sobem ao palco e pegam o microfone não tem pra ninguém. Essas que eu falei eram e são assim. Cada uma no seu estilo. Eu gosto de mulheres fortes que não ficam pra trás, pois naquela época mulher usando calça comprida, suspensório, dançando daquele jeito era muito ousado.

A Sia também me fascina com a sua voz forte. Fico apaixonada até pelos falsetes. Amy Winehouse nem se fala. Aretha Franklin e Whitney Houston não preciso nem comentar. Cher é demais! Cada vez que vejo os vídeos antigos dela eu me apaixono mais.

Das brasileiras, Maria Bethânia me influenciou pra caramba. Ela ensina que você não precisa gritar para conquistar o público. Bethânia tem esse negócio de você parar para ouvi-la. E a Gal Costa, sem dúvida, é a diva brasileira com a voz mais bonita na minha opinião.

Todas as divas me influenciaram muito, cada uma da sua maneira.

MDPOP: Qual a importância das divas na sua vida e por que você decidiu criar um show para homenageá-las?

PM: As canções que essas divas cantam estavam inseridas no meu repertório desde que eu me apresentava com outras bandas. No The Voice Brasil, a maioria dos participantes optaram por fazer um disco autoral. E para mim era um momento onde pisávamos em ovos. A gente não tinha muita noção de que caminho seguir. A partir do momento que o participante aparece pela primeira vez no programa, a produção orienta a escolher um estilo, tem os sertanejos, os pagodeiros e junto com outros participantes representei o rock. Então eu escolhi cantar Esse Tal de Roque Enrow da Rita Lee que me deu muita sorte. Quando a minha participação no The Voice se encerrou eu sentia que não era o momento de gravar um disco autoral e optei por criar o show “Divas do Rock – Tributo às Cantoras do Rock Pop” para homenagear todas as divas que eu cantei a vida inteira desde Tina Turner a Lady Gaga. Eu juntei as melhores músicas de cada uma delas e preparei esse show. Antes de dar o próximo passo que é o projeto do CD autoral eu queria ter uma experiência com esse show “Divas” e foi muito bacana, porque peguei muitas referências o que acabou gerando um segundo show “Tributo às Divas do Rock Pop Brasil” que homenageia Rita Lee, Marina Lima, Cássia Eller, entre outras. Todos esses passos estão me ajudando na construção do meu CD autoral.

Paula Marquezini no show “Divas do Rock – Tributo às Cantoras do Rock Pop” (Fotos: Marcelo Crelece)

MDPOP: Pra você qual é a diva suprasumo?

PM: Internacional ou nacional?

MDPOP: Pode ser uma internacional e outra nacional.

PM: Putz! Essa pergunta é muito difícil, sabe por quê? Porque tem a diva artista e a diva pessoa. Não temos como conhecê-las intimamente, então temos que focar na diva artista. Sabe, eu gosto muito de uma coisa na Laura Pausini que é a forma como ela realiza o seu trabalho, a organização, os músicos, o jeito que ela trata o público. Eu acho que a cantora tem que ser isso tudo junto. Não dá pra separar, não dá pra fazer um puta show e tratar o público e os fãs com ignorância. Eu gosto muito do jeito da Laura, do jeito da Ivete Sangalo que vem e que conversa, que não tem medo, não tem barreira.

Tem o lado da Janis Joplin que ela colocava tudo pra fora, ali no palco mesmo, sem pudor, só que depois ela sofria muito (essa parte eu não gosto). A Tina Turner tem uma história de vida incrível. Todas elas que eu citei, na minha cabeça, formam uma diva só. Cada uma tem uma característica. Para escolher uma, não tem como. Sou fã de todas. Talvez, a que o coração bate um pouco mais forte é a Janis Joplin. Essa ‘bicha’ eu queria ter conhecido.

MDPOP: Das cantoras da nova geração, qual você acha que terá uma carreira até os 60, 70 anos?

PM: Lady Gaga eu consigo visualizar cantando aos 70 anos como a Cher. É inteligente pra caramba e atual. Comecei a gostar da Lady Gaga, por causa da minha mãe que adora ela. Eu acho que a Gaga vai até uns 200 anos fácil. Ela é completa como artista.

A Sia também é muito boa, mas acredito que falta mais divulgação no trabalho dela. A Beyoncé também nem se fala. Elas só param se quiserem. Eu não sei o que essas cantoras fazem, que ficam cada vez mais bonitas, mais jovens e cantando muito. Será que um dia a gente descobre?

Se você quer saber mais sobre o trabalho de Paula Marquezini, acesse o site oficial: www.paulamarquezini.com.br

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Assista a apresentação de Paula Marquezini no programa “Todo Seu”.

O MDPOP agradece ao fotógrafo Marcelo Crelece por ter cedido gentilmente as fotos que compõem a entrevista.